Expirado o quinto ano no campo de Iturama, a Missão me transferiu para Pirapora de Minas, às margens do São Francisco. Ali nasceu nossa filha Eline, e ali comemos o pão que o diabo havia sovado para nós. Dois grandes e inesperados problemas nos envolveram ali: o primeiro, a Missão fazia suas transferências sem consulta prévia a seus obreiros. Sem o sabermos, ela transferia dali o evangelista a quem a igreja amava e queria, e ela, Missão, não queria, e me colocava em seu lugar, sem que a igreja me quisesse. Aquele obreiro e aquela igreja criam com todas as veras da alma que eu era participante no complô. Nunca conseguimos convencer que éramos inocentes. Ali encontramos um dos homens mais difíceis do mundo, e, o que é pior, era presbítero. É muito complicado tentar explicar como é possível que homens como aquele cheguem a ser presbíteros, quando mal servem para ser meros membros. Aquele homem, associado a outras pessoas de seu círculo, e que eram contra nós, nos maltratou publicamente, quase nos levando à loucura. Algum tempo passado, voltei lá só para visitar e orar com uma senhora daquele círculo que fora atingida pelo câncer. Eu tinha que fazer isso, e o fiz. Não foi fácil, mas era preciso, e valeu a pena!
Aquele obreiro foi embora praguejando a Missão e a família Martins. Se fôssemos culpados das acusações, e ele realmente tivesse o poder de amaldiçoar, certamente já havíamos perecido há muito tempo, e nossas almas estariam desfrutando do mormaço mais intenso do inferno. É preferível ser odiado sem razão do que com razão; mas o ódio, seja ele justo ou não, é um dos elementos mais destrutivos e pestilentos da vida humana, particularmente da Igreja, não só para quem odeia, mas também para quem é odiado. Pior ainda quando tal ódio se aninha no coração de um arauto do evangelho da salvação eterna dada gratuitamente no sublime Nazareno, que outra coisa não sabia fazer senão perdoar. Ainda mais quando você não consegue provar sua inocência, e se cala, como se fosse de fato culpado, como reza o provérbio: “Quem se cala consente.” Talvez seja esta uma das razões por que aquela igreja, hoje, praticamente não existe. Às vezes leva tempo para o juízo divino se concretizar. Mas esse tipo de experiência muito me ajudou a jamais perseguir alguém e nem deixar o rancor aninhar no peito, porque a coisa que o ser humano mais sabe fazer, e com tanta facilidade, é interpretar mal e condenar o outro, e nutrir rancor por esse outro. Esta é uma peste das mais daninhas da história humana. Por ser eu um dos homens mais mal interpretados do mundo, por isso mesmo tenho lutado para não proceder da mesma forma.
O outro grande problema na igreja de Pirapora, naquele momento, foi a morte do missionário, Robert Litton, e metade da família, em desastre aéreo. Ele voltava da América do Norte quando, na Cordilheira dos Andes, houve uma pane no avião e este caiu, só sobrando um garoto. Ele foi substituído por um brasileiro. Omito seu nome por ele haver sido um grande servo de Deus, que já havia realizado e desde então realizou uma grande obra no seio das igrejas; e o mal que nos fez ele pensava ser bem. Eu nunca soube a que ele mais se dedicava: se à Igreja de Jesus Cristo, ou à Maçonaria. Se era mui dedicado à Igreja, muito mais dedicado era à Maçonaria. Fez uso de todo seu arsenal de recursos para me “converter”. Como minha filosofia, desde que me ingressei na Igreja de Jesus Cristo, era servir a Ele só de todo o coração e nunca me envolver nas coisas deste mundo, por isso não me tornei membro do Rotary, nem do Lions, nem da Maçonaria. Sempre vi nessas entidades a promoção do bem social da comunidade; nunca as condenei, nem do púlpito e nem em particular. No entanto, sempre pensei que os filhos de Deus não precisam de tais expedientes; aliás, quase sempre são prejudicados quando tentam harmonizar tais elementos com o reino de Deus. É costumeiro que são mais fiéis à entidade profana do que à santa Igreja, e a parte mais prejudicada costuma ser esta. A igreja tem tudo para a prática do bem com mais completude, em conformidade com as normas bíblicas. Aliás, o único bem genuíno e aceitável a Deus é aquele que ele mesmo preparou de antemão para andarmos nele (Ef 2.10). A Igreja é plena; possui elementos que nenhuma outra entidade humana possui. Ela deve ser abraçada de tal modo, neste mundo, que todos encontrem nela algo a imitar. Que ela seja o único refúgio humano que promove o verdadeiro e perene bem-estar. Se uma igreja local for pior que alguma outra corporação social profana, então ela deixa de ser Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo. Fui pastor de muitos maçons; nunca tivemos desavença, porque os pastoreava como minhas ovelhas, e não como maçons. Aproveito para dizer a quem porventura ler estas linhas que não sou ignorante da história e do conteúdo da Maçonaria. Li muitos livros não simplesmente sobre ela; tenha uma vasta literatura produzida por ela. Eu possuo a própria fonte.
Mas o Rev. Fulano não se conformou com minhas recusas. Aproveitou uma brecha e me denunciou à Missão, porque decidi aprimorar-me um pouco mais na escola. Uma das leis da Missão era que o obreiro não podia freqüentar escola. Então ela, na pessoa de seu presidente, me intimou e disse: “Ou você susta o estudo, ou será sustado!” Minha resposta pronta foi: Então que me sustem, pois não vou recuar-me agora. A Missão não se importa com o futuro de seus obreiros, mas eu me preocupo com o futuro meu e de minha família. E quando eu alcançar o que pretendo, não poderei dizer a vocês dois: Muito obrigado! Havia algo de mui verdadeiro nesta última expressão, mas, naquele momento, não passou de um desabafo. O fato é bem outro: quando alcancei aquilo pelo que anelava, não deixei de ser grato àquele nobre e bravo servo de Deus nem à Missão. Esta foi muito boa para comigo. Meu coração só tem boas lembranças na companhia daqueles nobres irmãos de outros rincões. Aprendi muito com eles. O lado fraco da Missão era coisa dos homens, praticada por todos em todos os países. O equívoco daquele nobre colega de ministério é bem comum em todos nós. Eu mesmo já o cometi contra alguém em formas diferentes, mesmo quando não fosse essa a intenção. Bem mais tarde, eu e ele nos encontramos numa situação bem adversa, quando eu estava no comando, e lhe mostrei que nunca deixara de o amar e respeitar, estendendo-lhe a destra de companheiro e dando-lhe campo. No momento da posse, eu disse à igreja: Eis aqui um homem valoroso que merece ser amado e respeitado. Tenho certeza de que ele fará aqui um grande trabalho. Creio que os pastores de almas deveriam agir assim uns para com os outros. Quando aquele colega faleceu, confesso que senti muito pesar. Ele fora um homem valoroso na Igreja, merece ser bem lembrado e deveria ter sido mais valorizado pelo comando supremo da Igreja. Ele tinha umas qualidades positivas que eu nunca possuí. Sei ainda que ele já abriu caminho para a glória eterna. Na grande fila, ele estava à minha frente.
A despeito de tudo, posso dizer que, se houve um propósito definido em minha curta permanência em Pirapora, e certamente houve, quatro pessoas ali fizeram parte desse propósito: duas mulheres e três homens. Das mulheres, uma foi dona Maria de Oliveira, enfermeira, prima de meu futuro tutor eclesiástico, Rev. Divino José de Oliveira, justamente a esposa do famigerado presbítero que quase transtornou de vez nossa vida ali. Como enfermeira e amiga, ela nos foi uma grande bênção no hospital. A outra, também enfermeira, naquele tempo jovem solteira, de grande coração e de vida cristã a toda prova, cujo nome é Onan. Nunca esquecemos estas duas pessoas que nos trouxeram muito refrigério no ardente deserto, e somos sempre gratos a Deus por elas.