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Primeiro Campo


No final de 1963, recebia meu diploma de evangelista leigo e volvia as costas para aquela casa que veio a ser minha casa e minha família. Procurei cultivar e intensificar tudo quanto aprendera ali. No entanto, assim que parti com o convite da Missão Presbiteriana no Brasil para assumir um campo de trabalho, tive a nítida noção de que ainda não estava pronto para tal empresa. Isso me valeu muito, pois me forçou ao cultivo da humildade (virtude que andava e ainda anda longe de mim!) e do estudo sem trégua. Levou-me a programar a vida cotidiana, quer pessoal, quer familial, quer ministerial. Levantava-me de manhã e lia a Bíblia durante horas, sublinhando e memorizando textos; lia outros livros; vi-me forçado a comprar livros e mais livros, pois o que possuía era quase nada. Devorava tudo o que vinha a minhas mãos. Dava o maior valor a um livrinho. Procurava preparar-me bem, fosse para o sermão, fosse para o estudo bíblico. Com isso li e estudei muitos livros importantes; lia minha Bíblia até consumi-la, dezenas de vezes, e então comprava outra. Não me detive somente numa versão. Fui adquirindo diversas versões da Bíblia, inclusive as católicas, as versões heréticas e em outros idiomas. À tarde saía a dar assistência “pastoral” ao rebanho e interessados no evangelho. Para isso, estudei livros sobre “como ganhar almas para Cristo”. Preparei vasto acervo de estudos bíblicos. Adquiri um grande traquejo no manuseio prático da Bíblia e na citação de textos de memória. Costumava decorar quase tudo o que marcava nela. Sempre tive a visão de que um obreiro eficaz tem de ser o homem mais bem preparado da comunidade. Ele representa a igreja na comunidade em que se acha inserida. Ou a enobrecia, ou a denegria de vez; ela estava nele, homem de Deus, como seu profeta e mestre. Se a representasse mal, então ela sucumbia. Inclusive o pouco de inglês e espanhol que sei e uso hoje nas traduções praticamente os aprendi na Bíblia. Não me lembro bem, mas creio que li toda a Bíblia em inglês e espanhol mais de uma vez.   

Meu primeiro campo missionário foi Iturama, cidadezinha do pontal mineiro, naquele tempo (janeiro de 64) era o último município do Triângulo Mineiro, divisa com os Estados de São Paulo, Mato Grosso e Goiás. Fui já casado. Ainda no IBEL, amei uma moça da mesma classe, Cremilda; bem combinados e acertados, nos casamos na cidade de Formosa, Goiás, e fomos para esse primeiro campo. Era filha de Clarindo Fernandes Caixeta e Rosa Araújo, e irmã única de Otávio, João, Antonio e Nilson. Mais tarde Otávio e Antonio vieram a ser pastores. Trabalhei em Iturama cinco anos. Durante esse tempo, nasceram nossos primeiros 3 filhos: Sóstenes, Wânia e Simonton. Havia na congregação uma escola primária, e Cremilda era a diretora e professora, além de me acompanhar na assistência à congregação. Aquela escola rendeu muito ao nosso trabalho. Através dela muitas pessoas vieram para a igreja e eram instruídas na sã doutrina; ainda que o mestre fosse um mero novato, porém cônscio disso.  O grupo cresceu e tivemos que quebrar algumas paredes. No entanto, enfrentamos os inimigos da fé. Pode parecer incrível, mas não foram os romanistas nossos algozes, e sim os membros da Congregação Cristã do Brasil. Tudo faziam para minar nosso esforço, afastando os interessados e levando-os para si; conseguiram levar uns poucos, porém não muitos, porquanto me esmerei para confrontar as seitas com a igreja genuína. Foi aí que desenvolvi o talento de polemista. Havia ali uma efervescência religiosa, e eu tinha que defender o rebanho dos lobos e das ovelhas equivocadas.

O primeiro missionário sob cuja égide trabalhei foi o Rev. Robert Lytton; voltaria a trabalhar com ele mais tarde em Pirapora. O segundo foi o Rev. Charles Cobb, genro do grande e velho missionário que viveu muitos anos no Brasil, chamado George Hurst, um homem que cobriu boa parte da história da Missão Presbiteriana no Brasil. E o Evangelista a quem sucedi no campo de Iturama foi um homem extraordinário, chamado Vicente Almeida, com quem nossos caminhos se cruzariam novamente bem mais tarde. Pessoalmente, foi de grande valia e um privilégio haver conhecido e convivido com o Vicente Almeida e sua esposa Eva.    

Naquele período, encontramos alguns crentes numa pequena cidade a uns 50 quilômetros de Iturama, chamada Carneirinho, cuja origem remontava a uma grande e famosa família da região, intitulada “os Carneiros”. A congregação nasceu dentro da casa de uma família “Carneiro”. José Carneiro, juiz de paz da comarca, homem de uma popularidade ímpar, veio para a igreja e se tornou um dos maiores elementos de nosso trabalho, pois sua esposa, Terezinha, já era membro da igreja de Iturama, e os filhos Esdras, Éder, Edson e Edna cresceram nela. Também o dentista Lourenço e esposa, Clarinda, Sr. Manoel, entre outros, foram os fundadores daquela pequena comunidade cristã. Resolvemos edificar ali um pequeno templo. O terreno foi doação de outro “Carneiro”, Sr. Marcondes; nunca aderiu à fé evangélica, porém fez constar em Seu livro, “Terra e Gente de Carneirinho”, a história da congregação presbiteriana dali. Naquele tempo se converteu um pedreiro espírita, discípulo do famoso Chico Xavier, guru espírito de Uberaba, José Inocêncio, que foi nosso construtor. E assim aquela congregação existe ali até hoje, e já gerou muitos para o reino de Deus. E tudo isso se deu em meio aos ataques da Congregação Cristã do Brasil. Por essa seita, aquela igreja jamais teria existido ali.

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