Em minha classe havia um aluno chamado Benedito Meneses, esse homem viera das bandas do Rio de Janeiro. Estava ali como uma tentativa de ser transformado num homem de Deus. Fora grande celerado, chefe de gangue, preso muitas vezes, abraçara o evangelho não sabemos como, pois não conhecemos sua história. No peito esquerdo faltava-lhe uma costela, arrancada por uma facada de inimigo, isso dentro do próprio presídio. Eu via nele uma grande vontade de superar o passado. Aproximei-me dele e fizemos uma forte amizade. Ele, porém, criava problema com todos os alunos. Todos tinham medo dele e o evitavam. Quando furioso, víamos em sua face um lampejo de fúria só contida pelo temor de Deus que então cultivava. Certa vez, Rev. Woodson pediu minha opinião sobre o Benedito, porquanto eu era o presidente da classe. “Valter, tenciono mandar embora o Benedito, pois tenho medo que esse homem crie um caso muito grave para esta instituição. Quero sua opinião como presidente da classe.” Lembro-me como se fosse hoje da resposta que, ingênua porém sincera, lhe dei acerca do amado colega. Rev. Jame, para onde esse homem irá e o que será dele fora dos “muros” do IBEL? Ele ficará sem qualquer proteção espiritual. Faça com ele o que o senhor fez comigo. Vamos agüentar um pouco mais para o bem dele.
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| Benedito Meneses |
O fato é que o Benedito não foi despachado do IBEL. Eu era então o livreiro. Houve um contratempo com a conta do Benedito. Não me lembro mais se a causa estava em mim ou nele; já faz muito tempo. Aconteceu de batermos boca e ele partiu para cima de mim. Quando me deparei com aquele enorme muro de carne vindo para cima de mim, e eu franzino e sem traquejo, vi meu barco fazer água. Sucedeu de o Rev. Woodson estar por perto e interveio em tempo. Pondo-se entre nós, gritou que ele não fizesse nada contra mim. Por sua vez ele gritou que eu era o protegido do Rev. Woodson. Então este lhe contou o que até então não sabia: que ele estava ainda no IBEL porque eu havia intercedido por sua permanência. Ao ouvir isso, ele empalideceu, recuou e foi para seu quarto. Fui após ele. Ao entrar em seu quarto, porquanto vivia sozinho, pois ninguém se aventurava a morar com ele, o encontrei em pranto. Ao entrar, me abraçou, dizendo que se sentia um miserável, pois tinha em mim um amigo e não levou isso em conta. “Valter, eu sou um homem desgraçado!” Juntos choramos abraçados. Então ele orou aos gritos que Deus o perdoasse e que usasse de misericórdia (pois a palavra literal foi essa) para com ele, pois não passava de um grande crápula.
Benedito deu tanto trabalho à direção daquela escola, que a cadeira em que se assentava diante do diretor passou a chamar-se “Benedita”. Dizem que até hoje aquela cadeira conserva a memorável alcunha. Por certo que hoje ninguém ali conhece a história original da “Benedita”, porém é uma história bem minha, porquanto me assentei também várias vezes ali e vivi bem junto do próprio Benedito que lhe emprestou o nome. O doloroso fato é que Benedito não deu certo nos campos das igrejas que tentaram ajudá-lo. Por fim, deixou tudo e veio morar em Goiânia e se meteu de novo na vida bandida e morreu nas ruas da capital goiana, assassinado por um anônimo, cujo crime nunca foi desvendado. Guardo em meus arquivos o jornal noticioso até hoje. Cada vez que o releio, vêm-me sombras dolorosas, pois de tal modo conheci o Benedito que, se alguém me perguntar hoje se creio que ele era um eleito de Deus, minha resposta é positiva, a despeito do doloroso desfecho que ele teve. Profunda lição me ficou dos efeitos profundos e misteriosos da graça que salva o pecador mais vicioso, como no caso do bandido do Calvário. Se a graça é infinita, então ela cobre qualquer pecado finito. Se Lucas não completasse a história resumida por Mateus, acerca daqueles dois bandidos, quem diria que um deles era eleito e foi naquele mesmo dia morar com Jesus, se no céu não entra bandido? Minha visão da graça salvadora em Cristo é tão profunda, que jamais saberia expressar verbalmente o que penso. Mais ainda, se essa graça em Cristo salvou a mim, que ainda sou um grande pecador, a quem ela não salvaria? Se ela mudou repentinamente aquele bandido no estertor da morte, certamente poderia ter salvado ao Benedito. Se o bandido se arrependeu no momento final de sua vida, por que o Benedito não poderia ter se arrependido na exata passagem desta vida para a outra, gritando: “Tem piedade de mim, ó Deus!”? De modo absoluto, não sabemos; somente Ele sabe!
