Aquele ônibus estacionou-se na rodoviária de Patrocínio; era o destino final da viagem. Enfim, chegava no IBEL. Para mim aquele, sim, era um novo universo. Até então, não havia visto nem experimentado nada parecido. O choque existencial foi terrível; o contraste, chocante. Ao deixar o interior do ônibus, empunhando uma malinha surrada, deparei-me com um bando de pássaros em algazarra: eram Ibelinos de todos os recantos que ali chegavam para ou o início ou o reinício das aulas. Os veteranos festejavam o reencontro; os novatos se esquivavam ante o inusitado. Ninguém era conhecido. Aos poucos fui avistando alguns dos professores. Ao encontro dos alunos na rodoviária foram Miss Frances Hesser e Dona Ana Alvarenga. Aquela, a psicóloga de todos; e esta, a conselheira das moças. Há tempo que ambas viviam ali, e há tempo também que ambas abriram passagem rumo à morada dos santos, deixando para trás um rastro de luz que jamais deixará de fulgurar.
Jamais imaginara que houvesse no mundo pessoas como aquelas. Na verdade, eram seres humanos como todos; eram pecadores como todos; não eram “santos”, como na forja da igreja romana. A diferença estava numa vida disciplinada, metódica e piedosa, otimista e alegre, de intimidade com Deus. Eram homens e mulheres dedicados ao Senhor da Igreja. Jame Woodson e sua esposa Jesse, Frances Hesser, Marta Little, Ana Alvarenga, Nazaré Pimenta, Maria do Carmo de Castro, Saulo de Castro Ferreira, Bill Smith, Donald Kaller, Loyde Emerick, entre outros. Erravam também, porém suas vidas inspiravam nos alunos uma nova conduta, uma nova visão existencial, de amor pelo reino de Deus, pela Bíblia, pelas almas perdidas, de respeito mútuo, do desejo de ser santo e justo. Todos esses e os outros eram homens e mulheres profundamente cultos, experientes e comprometidos com “a fé uma vez entregue aos santos”. Sua fé teológica era calvinista, reformada, ortodoxa, exemplar, sólida e de profunda convicção. Os alunos não saíam de lá com algum conhecimento confuso ou distorcido da Bíblia. Eles incrementavam a busca por um conhecimento profundo da fé cristã. Suas aulas eram inspiradoras. Sua vivência era amorosa e dinâmica. Sua moralidade era exemplar. Vivi três anos intensos naquela instituição e na companhia dessas pessoas.
Minha vivência ali passou a ser com muitos moços e moças que haviam deixado suas famílias, igrejas, profissões e círculos sociais para se prepararem com o fim de servir ao reino de Deus com mais habilidade. A impressão que tive dos veteranos é indescritível. José Siqueira, Clovis, Benjamim, Amadeu, Orlando, Samuel, Arnaldo, Frederico, entre tantos outros, sem falar nas mulheres, que eram tantas. Todos esses já haviam estudado bastante, já haviam enfrentado os campos. Invejava-os por já serem pessoas com um preparo do qual eu estava ainda muito longe de alcançar (e de alguns nunca consegui alcançar). Eram polidos, amigos, crentes, estudiosos, muito diferentes de mim. Falavam de suas realizações nas igrejas durante as férias. Falavam de suas leituras e aulas de teologia. Sua conversação era de gente instruída. Falavam bonito, sabiam das coisas! Perguntava-me: Será que vou chegar lá? Diante deles, minha timidez era alarmante. Só de tentar visualizar-me naquele ambiente, perdia o fôlego, não conseguia acreditar que tivera a coragem de chegar ali sem a mínima condição. Não estou a empregar qualquer hipérbole; é a pura realidade. Sentia isso de tal modo que procurava viver afastado de todos. Quase não falava, nem com os colegas de quarto. A timidez era avassaladora. A expectativa era angustiante. Houve momento escuro e cheio de desesperança. Mesmo diante de meus colegas de classe, todos se avantajavam a mim. Já tinham certa cultura, enquanto que eu não possuía quase nada.
O prédio dos moços fora apelidado de “fariseu”. Na verdade era uma antiga residência transformada em internato. Ao lado ficava o campo esportivo, onde se jogava futebol, voleibol e outras coisas. Também ao lado ficavam algumas jabuticabeiras, que propiciavam uma verdadeira festa no tempo de frutas, com a atenta supervisão de miss Frances Hesser. Junto a elas havia um lindo framboyan, extasiante no tempo de flores. Antes de meu tempo, não guardei o nome, uma das alunas escreveu uma composição que ficou na história por muito tempo, com este título: “Quando o framboyan florir, é tempo de partir.” Ainda tenho fotos tiradas com a árvore coberta de flores no fundo. Havia uma sacada acima da cozinha e refeitório onde me postava todos os dias após o jantar, ao pôr do sol, sozinho a meditar. Lá embaixo havia muita gente em algazarra, contudo eu me sentia sozinho. Era tudo muito belo, porém me trazia profunda saudade. No tempo do framboyan florido eu olhava para o pôr do sol e para aquela árvore. Havia também um caramanchão lindo e aconchegante. Era ali que, depois de meditar naquela sacada, me recolhia à luz de lâmpadas para minhas leituras. Enquanto os alunos festejavam no salão do pingue-pongue, com seus furtivos e deliciosos flertes, eu estudava ou a matéria da ocasião ou um livro escolhido a esmo.
Minha classe era composta de Albertino, Edvar, Wilson, Antonio, Benedito, Eunício, Floramante. Desses, dois já faleceram: Antonio, falecendo na função de pastor; Benedito, falecendo na função de um miserável famigerado, mergulhado no mundo do crime. A última notícia de Edvar é que se tornara pastor batista; Floramante veio a ser um vigoroso pastor; de Eunício, nunca mais tivemos notícia; Albertino e Wilson se tornaram ativos presbíteros. Das mulheres: Cremilda, Diva, Domingas, Celcina, Claudete, Ivaneide, Luzia, Aparecida, Maria Cruz, Aldaíza, e umas outras que não ficaram até o fim do curso. A maioria das mulheres perdeu para sempre o contato conosco. Foi com Cremilda que mais tarde me casei. Fui eleito o presidente de minha classe, a despeito de toda minha timidez e despreparo.
![]() |
| Miss Frances Hesser |
Uma das pessoas mais extraordinárias que conheci em toda minha vida era então a mentora da instituição: miss Frances Hesser. Haver conhecido aquela mulher foi para mim uma das experiências mais ditosas. Era a mãe do equilíbrio, da simpatia, da serenidade, da percepção da alma humana. Ela olhava para dentro da gente. Nunca se alterava; nunca perdia aquele sorriso misterioso, com uma gargalhada discreta e breve. Suas perguntas pausadas e bem colocadas deixavam o aluno mudo e indisposto de tergiversar.
Outra mulher singular foi dona Ana Alvarenga. A pessoa que a teve por mestra e desfrutou seu convívio deveria considerar-se altamente privilegiada. Eu me considero assim. Sua matéria muito pessoal denominava-se A Montanha. Ali se encontrava tudo o que é prático e conveniente a alguém que quisesse formar-se bem para o serviço da Igreja. A gente aprendia como se portar no púlpito, desde o sentar-se até o postar-se por detrás dele; como sentar-se à mesa e como usar os talheres. Ai do grupo que durante a semana a tivesse encabeçando a mesa. Era uma penúria. Quase nem dava para comer. Lembro-me que no início queimei a boca várias vezes com comida ou com o leite com café. Muito do que aprendi com dona Ana Alvarenga veio a ser um hábito perene. Por exemplo, até hoje não consigo sentar-me ao púlpito e cruzar as pernas. Não consigo fazer um estudo ou pregar sem pelo menos a gravata. O moto de toda a matéria era: “Hei de encarar este monte difícil de transpor com o coração cheio de coragem.” E, quando se sentava ao piano para os prelúdios do culto e acompanhar os louvores, ela tangia suas músicas prediletas com uma maestria só dela! Eu chegava mais cedo, sôfrego, a fim de meditar aos sons daqueles acordes divinais. Se o culto fosse interrompido ali, sentia que já havia adorado o Senhor do universo.
Assim que cheguei, Miss Frances Hesser passou a assediar-me discretamente, fazendo-me perguntas acerca de minha pessoa, família, cultura e finanças. Com certeza ela passava para o diretor o que ia colhendo a meu respeito. Mais tarde foi a vez do próprio diretor, que quis saber quem era meu tutor, quem iria pagar a conta e como eu pensava vencer a falta de cultura: queria saber qual fora meu embasamento cultural. Com ingenuidade quase simplória, eu respondia a tudo: não tinha nenhum tutor – aliás, nem mesmo conhecia o sentido de tal palavra –; não tinha dinheiro nenhum, e contei parte de minha vida; minha cultura era quase uma nulidade. Estava ali porque senti profundo desejo de aprender a ganhar almas para Cristo e de edificar a igreja com o ensino da Santa Escritura. Então perguntou: “Valter, como é possível você permanecer aqui nesse estado? Esta escola sobrevive com o dinheiro dos alunos; cada um tem alguém responsável como seu orientador e acompanhante da vida e dos estudos; o aluno que não tem cultura básica não pode suportar a carga de aulas programadas. Sinto muito, mas tenho que mandá-lo de volta para casa.” Com estremecimento, lhe respondi: Rev., eu entendo tudo isso; se o senhor me despedir daqui, tenho que lhe dar razão. No entanto, há algo que o senhor precisa saber: se me despedir desta instituição hoje, não terei para onde ir. Ninguém me espera em lugar nenhum! Já estou afeiçoado a esta escola: como será minha vida sem ela? Expressei isso com a mais profunda emoção. Era quase que um grito da alma.
