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A Música


Ciente de minha grande carência de cultura, de experiência, de traquejo para o ministério, isso me proporcionou o intenso desejo de adquirir, ali, o máximo de conhecimento e de experiência. Enquanto todos espaireciam nos intervalos, eu me aferrava aos livros e às lições de classe. Até hoje os velhos colegas de IBEL, quando me encontram, se lembram desse cenário. Sempre tive a língua presa e uma péssima dicção. Naquele tempo, então, era muito pior. A professora Loyde Emerik ocupava a cadeira de português, e lutou muito comigo para corrigir diversos vícios de linguagem. “Valter, o pregador não pode falar assim!” Eu nasci assim, professora, e vou morrer assim. “Não é verdade. Todos nós corrigimos os defeitos de nascença.” De fato, aqueles insistentes conselhos da Profª Loyde deram resultado: consegui corrigir muitas coisas. Quando preguei meu sermão de prova – chamar aquilo um “sermão” é mera hipérbole! –, Rev. Saulo de Castro Ferreira era o professor de homilética. Durante a crítica, ele me afirmou com todas as letras: “Valter, vou lhe dar cem anos para você aprender a pregar, e sinceramente sinto que nem assim vai conseguir tal proeza.” E ele estava certíssimo, porque nunca aprendi a arte da oratória. Procurei sublimar essa carência com outros recursos. Anos depois, tive o grande privilégio de tê-lo como companheiro de concílio. Um dos homens mais nobres, piedosos e extraordinários que conheci. Mas aprendi que não devemos nos dirigir às pessoas em prova em termos tão escabrosos. Se possível, façamos menção de alguma vantagem que elas têm.

Albertino, Edvar, Valter e Wilson
Um desses meus recursos foi a música. Aprendi os rudimentos da arte para empregar nas igrejas. Formamos ali um quarteto masculino, com Albertino, como regente, Edvar, Wilson Balisa e eu. Chegamos a viajar para ali e para lá cantando nas igrejas. Havia muito entusiasmo e sonhos para quando saíssemos dali. Aferrei-me de tal modo a esta arte que, no final, o diretor, Rev. Jame Woodson, me revelou que do dinheiro da bolsa havia sobrado certa quantia. Quando chegasse no campo, o missionário me passaria às mãos aquele dinheiro para a compra de um instrumento. Assim se deu, pois o primeiro missionário com quem trabalhei, Rev. Robert Litton, recebeu aquele dinheiro, trouxe de São Paulo um catálogo de Harmônios de fole e disse que eu escolhesse o tamanho que quisesse. Escolhi o do meio, um lindo instrumento, porém o preço era bem superior à quantia em pauta. Ele mesmo completou aquele dinheiro e comprou o número de que gostei, providenciou o transporte e deixou o instrumento dentro de minha casa. Que som lindo! Eu fiquei como se sonhasse! Agora podia dedicar parte de meu tempo e desenvolver meu dom para música, o que me valeu a alcunha de “evangelista cantor”. Naquele tempo, a IPB usava o hinário emprestado dos metodistas, Hinário Evangélico. Aprendi a tocar e a cantar todos os 500 hinos.  

Muito depois, já pastor, no campo de Paraíso do Tocantins, tínhamos um vizinho ateu confesso, senhor Rondon, que se assentava todas as tardes à porta de sua casa, enquanto todas as tardes eu também me punha ao harmônio, tocava e cantava a peito aberto os grandes hinos. Certa tarde ele acenou para que eu me achegasse à porta de sua casa, onde jazia assentado. Então me perguntou: “Pastor, você sabe por que todas as tardes eu me assento aqui?” Claro que sei, senhor Rondon; é para refrescar-se do intenso calor. “Errado”, disse ele. “Eu me assento aqui fora para ouvi-lo cantar! Você deve ser parente de canarinho.” Sem dúvida, era exagero dele. O que teria o senhor Rondon aproveitado daquelas cantorias? Só Ele sabe!

De fato, eu sempre cantava não só com o peito e a boca, mas com o coração e com a alma. Hoje eu só recordo de tudo aquilo, porque já não canto com a boca, e sim só com a alma! Tudo passa e os impulsos da vida vão se escasseando e desabando, de repente, o que mais gostávamos de fazer, deixamos de lado. Só vai ficando um rastro de dolorosas reminiscências. O vigor da vida murcha e o sofrimento forma calosidade, e tudo vai ficando tão longe, que só resta o distante eco de uma vida que não volta mais. Olhamos para o horizonte distante e só vemos sombras já indistintas, e o que recordamos não passa de retalhos desconexos. Muitos daqueles com quem tivemos convivência já partiram, e a nova geração nem sequer se esforça para conhecer a história de sua comunidade cristã. Se no culto há algum idoso ou idosa, já não recebe nenhuma atenção; já não canta; já não é olhado; já não é ouvido; emudece e jaz no esquecimento, enquanto toda a juventude canta para a glória de Deus (?)! Aos setenta anos, muita água já passou por debaixo da ponte! O vigor juvenil se foi em boa medida e ninguém se detém para nos ouvir. Ali está apenas um velho, uma velha, não um arsenal de história e experiência. Ninguém pára a fim de indagar de um idoso ou idosa qual o hino que mais gostava de cantar. Seria esse o louvor que o Senhor do universo espera que lhe entoemos?

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