Ciente de minha grande carência de cultura, de experiência, de traquejo para o ministério, isso me proporcionou o intenso desejo de adquirir, ali, o máximo de conhecimento e de experiência. Enquanto todos espaireciam nos intervalos, eu me aferrava aos livros e às lições de classe. Até hoje os velhos colegas de IBEL, quando me encontram, se lembram desse cenário. Sempre tive a língua presa e uma péssima dicção. Naquele tempo, então, era muito pior. A professora Loyde Emerik ocupava a cadeira de português, e lutou muito comigo para corrigir diversos vícios de linguagem. “Valter, o pregador não pode falar assim!” Eu nasci assim, professora, e vou morrer assim. “Não é verdade. Todos nós corrigimos os defeitos de nascença.” De fato, aqueles insistentes conselhos da Profª Loyde deram resultado: consegui corrigir muitas coisas. Quando preguei meu sermão de prova – chamar aquilo um “sermão” é mera hipérbole! –, Rev. Saulo de Castro Ferreira era o professor de homilética. Durante a crítica, ele me afirmou com todas as letras: “Valter, vou lhe dar cem anos para você aprender a pregar, e sinceramente sinto que nem assim vai conseguir tal proeza.” E ele estava certíssimo, porque nunca aprendi a arte da oratória. Procurei sublimar essa carência com outros recursos. Anos depois, tive o grande privilégio de tê-lo como companheiro de concílio. Um dos homens mais nobres, piedosos e extraordinários que conheci. Mas aprendi que não devemos nos dirigir às pessoas em prova em termos tão escabrosos. Se possível, façamos menção de alguma vantagem que elas têm.
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| Albertino, Edvar, Valter e Wilson |
Muito depois, já pastor, no campo de Paraíso do Tocantins, tínhamos um vizinho ateu confesso, senhor Rondon, que se assentava todas as tardes à porta de sua casa, enquanto todas as tardes eu também me punha ao harmônio, tocava e cantava a peito aberto os grandes hinos. Certa tarde ele acenou para que eu me achegasse à porta de sua casa, onde jazia assentado. Então me perguntou: “Pastor, você sabe por que todas as tardes eu me assento aqui?” Claro que sei, senhor Rondon; é para refrescar-se do intenso calor. “Errado”, disse ele. “Eu me assento aqui fora para ouvi-lo cantar! Você deve ser parente de canarinho.” Sem dúvida, era exagero dele. O que teria o senhor Rondon aproveitado daquelas cantorias? Só Ele sabe!
De fato, eu sempre cantava não só com o peito e a boca, mas com o coração e com a alma. Hoje eu só recordo de tudo aquilo, porque já não canto com a boca, e sim só com a alma! Tudo passa e os impulsos da vida vão se escasseando e desabando, de repente, o que mais gostávamos de fazer, deixamos de lado. Só vai ficando um rastro de dolorosas reminiscências. O vigor da vida murcha e o sofrimento forma calosidade, e tudo vai ficando tão longe, que só resta o distante eco de uma vida que não volta mais. Olhamos para o horizonte distante e só vemos sombras já indistintas, e o que recordamos não passa de retalhos desconexos. Muitos daqueles com quem tivemos convivência já partiram, e a nova geração nem sequer se esforça para conhecer a história de sua comunidade cristã. Se no culto há algum idoso ou idosa, já não recebe nenhuma atenção; já não canta; já não é olhado; já não é ouvido; emudece e jaz no esquecimento, enquanto toda a juventude canta para a glória de Deus (?)! Aos setenta anos, muita água já passou por debaixo da ponte! O vigor juvenil se foi em boa medida e ninguém se detém para nos ouvir. Ali está apenas um velho, uma velha, não um arsenal de história e experiência. Ninguém pára a fim de indagar de um idoso ou idosa qual o hino que mais gostava de cantar. Seria esse o louvor que o Senhor do universo espera que lhe entoemos?

