Pular para o conteúdo principal

Vocação Para o Ministério

Francisco Maia veio a ser meu espelho, meu referencial, e o Espírito de Deus usou aquele moço para injetar em mim um profundo anseio de ser como ele, de aprender a pregar como ele pregava. Francisco acabara de sair do IBEL (Instituto Bíblico Eduardo Lane), Patrocínio, Minas Gerais, onde se formara para o serviço de evangelista leigo. Ele me falava muito desse IBEL, despertando em mim profundo anseio de ir lá e fazer o curso que ele fizera. Eu queria mudar de cidade, mudar de vida, experimentar algo bem diferente. Ali eu revivia minha vida pregressa, trabalhava na mesma oficina, mantinha vivência com as mesmas pessoas, era criticado por pessoas perversas e ignorantes, que me conheciam bem, as quais tentavam convencer-me de que eu estava num barco furado, que a religião que ora abraçava era vazia de toda a verdade, fabricada por homens perversos, inventada não há muito tempo. Um padre me disse que deixar a santa igreja católica era assinar a própria condenação eterna; que mudar de religião equivale a desgraçar a vida. Jesus não estava em nenhum outro lugar senão na santa madre igreja católica. Que o papa era nosso pai, o pai da igreja, a igreja romana, nossa mãe. Permanecer nela é viver na cidade de Deus. Sair dela é viver sem Maria, a Mãe Celestial. No entanto, ali eu vivera sem Jesus Cristo, sem a Bíblia, sem a verdadeira igreja, enfim, sem vida, sem verdade e sem luz. Eu lhe perguntei: Se eu morrer hoje, para onde eu vou? Ele me disse que ninguém pode saber. E lhe perguntei de novo: Se a igreja romana é nossa mãe, então ela deve garantir-nos que jamais nos perderemos, permanecendo em seu seio. O padre ficou sem assunto.

Certo dia recebi um folheto de um colega de oficina, com o título: “Por que não posso ser protestante?” Na igreja, eu havia recebido uma réplica desse folheto, com o título: “Por que não posso ser católico romano?” Então troquei figurinha com aquele amado colega. Disse-lhe que havia lido atentamente seu folheto, e que ele lesse o meu. Assim fizemos. Ele não mais tocou no assunto. O fato é que aquele colega veio a ser meu grande amigo, se deixando influenciar por mim; sem deixar a igreja papal, porém passou a ler a Bíblia com afinco e a liderar grupo de estudo bíblico em sua paróquia. Não faz muito tempo, nos encontramos e ele me confessou que eu fora uma grande bênção na vida dele; que lhe ensinara a amar e a ler a Bíblia com toda sinceridade; que me tinha em elevada consideração; que, para ele, eu era seu irmão; que sempre me citava nas reuniões de casais que ele dirigia; que um dia queria me convidar a dar um estudo bíblico a seu grupo.

Meu bom amigo e orientador, Francisco Maia, foi transferido de Tupaciguara e para lá, em seu lugar, foi outro evangelista, Jair Pires. Homem estudioso, também inteligente, cuja esposa muito generosa, cujo irmão, José Silvério, mais tarde seria meu companheiro de campo missionário. Vendo minha situação, e tendo em sua casa um cômodo nos fundos onde eu pudesse morar por algum tempo, convidaram-me e eu aceitei residir ali. Aquele foi meu melhor tempo. Rev. Jair e D. Maria do Carmo jamais terão ciência do profundo bem que me fizeram. Eram carinhosos comigo e de vez em quando me assentava com eles em torno de sua mesa. Foi dali que saí rumo ao IBEL. Sendo ambos ibelinos, passaram então a incentivar-me a que fosse lá para um dia ser também evangelista. Depois de Francisco, aquele casal passou a ser em minha vida um marco decisivo.

Assentei no coração que também seria ibelino, e que um dia haveria também de servir ao Senhor Jesus. No entanto, me faltava literalmente tudo para tal empresa. Faltava-me cultura suficiente. Então uma moça da igreja se dispôs a dar-me aulas particulares, gratuitamente, usando um antigo livro chamado Exame de Admissão. Estudei muito, porém minha desestrutura era tão escabrosa, que pouco proveito tive. Faltavam-me recursos financeiros, e a igreja era muito pobre, sem qualquer condição de favorecer-me ou mesmo de prometer-me algo para o futuro. Faltava-me contato com o IBEL. Miss Vivian Hodges era professora lá, visitou nossa igreja e conheceu-me ali, prometendo ajudar-me no ingresso naquela instituição, o que de fato fez. Faltava-me um tutor eclesiástico, e ninguém se oferecia para tal função, nem mesmo o missionário do campo, e o evangelista, Jair Pires, também não tinha condição para isso. Aliás, a Missão nem mesmo tomou conhecimento de minha decisão. Portanto, não tinha qualquer vínculo com o IBEL, não tinha cultura suficiente, nem dinheiro e nem um tutor eclesiástico: tinha que vencer sozinho. Mas uma coisa eu tinha: ânimo, vontade, um coração palpitante de amor pelo reino de Deus, a despeito de tanta ignorância.

Mesmo assim, eu queria ir para o IBEL. Eu tinha que ir para lá. Aquele colégio era meu futuro. Tal idéia me impelia cada vez mais. Passou a ser todo meu sonho. Dia e noite me via ali, estudando, enchendo-me de conhecimento, preparando-me bem para ser um obreiro de Jesus Cristo. Eu havia decorado aquele versículo de Paulo a Timóteo: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Como naquele momento eu era completamente despreparado, sem saber nem mesmo ler a Bíblia com alguém, de falar de Jesus Cristo como nossa eterna e infalível esperança, eu tinha que me preparar para isso.


Acertei com meu patrão da ferraria, virei as costas para aquela modesta oficina que fora a fonte de meu sustento, depositei o martelo sobre aquela velha e surrada bigorna, acertei com a pensão, onde morara por cinco anos, sobrou-me dinheiro suficiente para chegar lá; despedi-me de minha igreja, onde havia encontrado a felicidade e a paz com Deus, e parti rumo ao IBEL – para mim, um mundo totalmente desconhecido. À medida que o ônibus percorria a estrada poeirenta, diminuía a distância, mais me sentia adentrar um universo de onde jamais poderia achar o caminho de volta à velha vida. Estrada de chão, a poeira se elevava ao céu, densa, lenta e bem vermelha; vi minha cidade sumir no horizonte; senti minha vida pregressa se dissipar como fumaça; senti minha alma ofegar; olhava para frente, nada via senão um mundo desconhecido, porém a fé me impelia para frente, para nunca mais voltar atrás. Aquele moço de outrora morria e renascia um novo homem, cheio de uma esperança que não podia ser ilusão, aquela esperança bíblica que jamais morre, havia de concretizar-se um dia. Meu coração se arrochava e meus olhos marejavam, movidos pela visão retrospectiva e pela visão prospectiva: nada voltaria a ser o que fora; o futuro me era totalmente desconhecido. Na verdade, era como se eu pairasse no ar, sem onde repousar meus pés. Minha esperança se digladiava com a dúvida. É assim que entendo as palavras de Paulo: “esperando contra a esperança.”

Postagens mais visitadas deste blog

O ROSTO DE MOISÉS

E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que evanescente, como não será de maior glória o ministério do Espírito! Porque, se o que se desvanecia teve sua glória, muito mais glória tem o que é permanente (2Co 3.7,8,11). Ao descer do Monte Sinai, e encontrar o povo de Israel em torno do bezerro de ouro, numa autêntica prática carnavalesca, Moisés quebrou as duas tábuas de pedra da lei. Ele retornou ao monte e esteve mais quarenta dias e quarenta noites na presença de Deus. Depois disso, ele voltou com outras duas tábuas de pedra, exatamente como as primeiras. Mas havia algo mais: o rosto dele resplandecia. Arão e o povo temeram aproximar-se dele, por isso ele passou a cobrir seu rosto com um véu. O apóstolo Paulo nos esclarece que Moisés cobriu seu rosto porque percebeu que aquele brilho se desvanecia gradativamente. E, segundo o ap...

Minha História como Tradutor - Valter Graciano Martins

A SERPENTE DE BRONZE

Então, partiram do monte Hor, pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, porém o povo se tornou impaciente no caminho. E o povo falou contra Deus e contra Moisés: Por que nos fizestes subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil. Então, o SENHOR mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel. Veio o povo a Moisés e disse: Havemos pecado, porque temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo. Disse o SENHOR a Moisés: Faze uma serpente abrasadora, põe-na sobre uma haste, e será que todo o mordido que a mirar viverá. Fez Moisés uma serpente de bronze e a pôs sobre uma haste; sendo alguém mordido por alguma serpente, se olhava para a de bronze, sarava (Nm 21.4-9). Neste texto lemos do cansaço, da fadiga, da impaciência e da maledicência do povo contra o Senhor e contra Moisés. Evide...