Morando numa humilde pensão onde tinha seu quarto e o que comer. O dinheiro só dava para pagar a hospedagem naquela pensão. Ele ficou ali cinco longos anos. Longos porque foram anos penosos, escuros, solitários, sem qualquer perspectiva de vida futura. Não havia ninguém a quem recorrer em quaisquer assuntos. Via uma moça, sentia-se naturalmente inclinado, porém se esquivava de mansinho, pesaroso, constrangido, porquanto seu aspecto social era mui precário. Roupas remendadas, calçados velhos e rotos, só bem mais tarde pode ele usar um terno completo, mesmo assim porque alguém lho presenteara. E assim Valter conheceu um universo de solidão e de apatia no tocante à vida futura.
Logo descobriu, para profundo desgosto seu, que a proprietária da pensão, sua irmã e mãe eram “crentes”. De vez em quando entrava ali um homem alinhado e de boa prosa, e então foi informado que aquele era o pastor da igreja daquela família. Cada vez que o Evangelista Armando Bonilha adentrava aquela casa, aquele moço arredio saía pelos fundos e esperava um bom tempo para então voltar. Passou então a freqüentar as missas com mais assiduidade junto com seu único amigo Zico, um pouco mais moço, muito religioso, com quem formou dupla caipira, aprendendo a tocar violão e viola. Zico se tornou um exímio violeiro, chegando a gravar disco com outro. Não faz muito tempo, chegou pelo correio um cd dele com esta dedicatória: “Com muito carinho e amor para meu irmão Valter Gordinho e família.” “Gordinho” era o carinhoso apelido que aquela família lhe dera, a qual, naquele tempo, se tornara sua família.
Certo dia a irmã da proprietária, Avelina, convidou o moço a acompanhá-la a uma reunião em sua igreja. Para o solitário jovem, ela se fizera como que uma irmã, e por isso a contra gosto a levou àquela reunião de jovens. Ele se sentiu fascinado com aquelas pessoas diferentes. Eram pessoas simples e sinceras; queriam sua amizade; importavam-se com ele; nunca vira nada igual, pois até então ninguém lhe dedicava amizade, além da família do Zico. Logo estreitaram os laços de amizade com aquele moço carente. Sentindo-se cativado, começou a compreender que os crentes eram pessoas nobres, amorosas, leais, e que liam a Bíblia constantemente e com convicção, pautando sua fé pelas páginas das Escrituras. O fato é que nunca mais deixou de frequentar a igreja. Isso se deu em 1958, com 19 anos de idade, num dos momentos mais cruciais na vida daquele jovem que, sem o saber, era encaminhado pelo Senhor da vida a um novo destino, um destino sem volta, um destino decisivo que mudaria para sempre uma vida que nada valeria sem essa bendita encruzilhada.
O que pode levar uma pessoa a gostar do que antes detestava, a mudar de rumo, seguindo a direção oposta e indesejada, a interessar-se pelo que antes desconhecia completamente, a descobrir que a felicidade não estava onde pensava estar, e seu futuro lhe era completamente diferente daquele que outrora almejara? É verdade que algumas pessoas viram as costas para a felicidade e a buscam onde não está, e se destroem, quando, seguindo em frente, teriam se salvado para sempre. Mas é mais fácil perder-se do que salvar-se. O caminho da salvação só pode ser achado pelo dedo de Deus que aponta nitidamente o rumo que não queríamos nem ora queremos seguir. Deus dera àquele moço a infinita graça de passar a querer o que antes não queria; a descobrir que a fonte da felicidade estava justamente onde ele recusava recorrer. Pois se o Espírito de Deus não mudar a disposição interior de uma pessoa, ela jamais tomará, por si só, a decisão certa. Não há equívoco mais desditoso do que crer que uma pessoa, sem a bênção da regeneração, pode, por si mesma, escolher seguir a nosso Senhor Jesus Cristo. Entregues a nós mesmos, todos pereceríamos irremediavelmente. Foi isso que aconteceu ao universo interior daquele moço: o Espírito de Deus abriu os olhos de sua alma e o fez ver o que antes não via; mudou sua mente, para que pudesse pensar o que nunca pensara; mudou sua sensibilidade, para que pudesse sentir o que jamais havia sentido; mudou sua vontade, para querer o que jamais haveria de querer. Esses são efeitos da doutrina mais gloriosa da Bíblia: a eleição ou predestinação. Aquele moço era eletivamente conhecido de Deus desde toda a eternidade, desde que Deus formulou seu eterno decreto. E a causa de sua eleição estava em Deus mesmo, e não nele. O que Deus poderia prever naquele moço para o eleger? Deixado por conta própria, continuaria naquela vidinha modorrenta, sem achar o caminho de acesso à vida eterna. Tudo o que lhe ocorreu e lhe ocorreria com o passar do tempo foi elaborado por Deus, tão-somente por ele.