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Filho do Meio

Nove filhos que um certo casal teve, sendo que um faleceu com poucos dias, dos oito restantes todos tinham seus nomes iniciados com M: Maurício, Maurílio, Maria, Marcely, Marcelucio, Manoel e Marília; menos o do meio que recebeu um nome iniciado com o V de Valter Graciano Martins. Os pais nunca souberam exatamente a razão da diferença, e realmente pouco ou nada importava, já que aquele menino se sentiu feliz com o nome recebido. Justamente aquele menino de nome diferente estava destinado a realizar uma obra perene e também diferente, a qual jamais seria apagada da história, e cujo nome se perpetuaria nas páginas de dezenas de livros, fato esse que ninguém, nem mesmo ele, tinha a mínima consciência, enquanto crescia e se desenvolvia, pisando a lama da terra massapé, respirando o ar puro do campo, banhando-se no ribeirão que corria nos fundos da casa, onde viveu por cerca de uma década, trabalhando com o pai na lavoura.

Era uma família ruralista, a lidar com a terra e com animais domésticos. Os pais, Manoel e Joana, eram pessoas muito simples, praticamente sem qualquer escola: a mãe, totalmente analfabeta, e o pai, mal sabendo rabiscar o nome, fazer umas continhas e soletrar as palavras de um texto bem simples. Mais tarde ele chegou a ler várias vezes o Novo Testamento de letras graúdas. Mesmo assim, eram pessoas possuidoras da cultura do berço e criaram os filhos com certa austeridade. Os filhos cresceram e se formaram pautados nesses princípios rudes, porém básicos e vitais. No entanto, eles mesmos não tinham uma religião bem formada e orientada. Diziam-se “católicos”, porém na prática imperava-se um rude sincretismo religioso. Formaram uma idéia muito vaga sobre Deus. Criam que os santos é que estão no comando para nos valer. Até então não haviam lido a Santa Escritura, senão bem depois, através justamente daquele filho do meio, de nome diferente. O pai se impôs que todos os filhos fossem à escola: “analfabeto basta eu”, dizia o rude lavrador da terra. De fato, nenhum dos oito cresceu sem escola. Todos adquiriram o suficiente para a boa condução da vida. Cada um seguiu sua própria inclinação e índole, porém sob a influência daqueles princípios paternos. O mais velho, Maurício, e o caçula dos homens, Manoel, já partiram deste mundo, cada um com sua cota de erros e acertos, porém nutriam o temor de Deus, cada um a seu próprio modo. Nenhum deles seguiu o desafortunado caminho do banditismo, e nenhum deles contraiu os deletérios vícios de nossa sociedade depauperada. Nenhum deles partiu sem ler a santa Escritura, portanto, sem conhecer um pouco da verdade revelada.

Havia entre os dois, marido e mulher, extrema disparidade e antagonismo; não conseguiram avançar juntos até o fim. Então resolveram viver cada um para si e por si, ficando o pai com os dois mais novos, dentre os homens, Marcelucio e Manoel, pois a caçula, Marilia, ficou com a mãe. Como os três mais velhos, Maurício, Maurílio e Maria, já se aventuravam sozinhos, os dois do meio, Valter e Marcely, tiveram que enfrentar a vida
 Filho do Meio
sem qualquer amparo paterno ou materno, sem qualquer estrutura emocional e financeira, ainda na adolescência. Poderiam ter seguido qualquer caminho ruim. Marcely era sapateiro e Valter, ferreiro. Aquele encarou a vida a seu modo e partiu se aventurando no campo da aquisição de bens, e deu certo, pois conseguiu ajuntar razoável riqueza; este, sem ter nenhuma outra inclinação nem oportunidade ou alternativa, continuou ferreiro, mal ganhando para comer, vestir-se e dormir debaixo de um modesto teto. 

Na sua caminhada sem rumo, ele conseguiu uma humilde pensão onde pudesse ter seu quarto e comer de modo mais metódico e substancial. O dinheiro só dava para pagar a hospedagem naquela pensão. Ele ficou ali cinco longos anos. Longos porque foram anos penosos, escuros, solitários, sem qualquer perspectiva de vida futura. Não havia ninguém a quem recorrer em quaisquer assuntos. Via uma moça, sentia-se naturalmente inclinado, porém se esquivava de mansinho, pesaroso, constrangido, porquanto seu aspecto social era mui precário. Roupas remendadas, calçados velhos e rotos, só bem mais tarde pode ele usar um terno completo, mesmo assim porque alguém lho presenteara. E assim Valter conheceu um universo de solidão e de apatia no tocante à vida futura. Continuaria para sempre ferreiro? Casaria com quem nesse estado caótico? Um dia surgia no horizonte e morria no outro horizonte. Vinha outro dia, e assim sucessivamente, semanas, meses, anos! Até mesmo sonhar lhe era difícil na presente conjuntura. Sonhar com o quê? Ele não via nenhuma via de acesso a uma vida diferente daquela!

Não obstante, naquela vida jazia oculto um grande e misterioso segredo, uma trajetória completamente diferente da trajetória dos demais. Ele nem sequer podia imaginar, mesmo de leve, o que o Senhor do universo lhe reservara. Aliás, naquele tempo, se alguém lhe sugerisse, mesmo brincando, que ele seria o que passou a ser logo depois, certamente teria ali um inimigo de sua alma, porquanto odiava crente e fugia de qualquer assunto sobre religião. Nunca lera a Bíblia, nunca entrara num templo evangélico, nunca demorara com um cristão evangélico para falar sem pressa das grandezas da salvação em Cristo. O primeiro que lhe fez menção de um texto bíblico, esse mesmo fez uma citação inexistente, a saber: “Ai dos cantadores e encantadores.” Porquanto ele era “cantador”. Quando numa praça via evangélicos reunidos para a pregação da palavra, cortava uma longa volta para escapar de ouvir sequer uma palavra da boca deles. Ele nem de leve podia perceber que ali estava todo seu futuro, toda sua felicidade, toda sua vida com o Senhor da vida. O Espírito de Deus o encaminhava para as veredas da plena verdade e para a esfera de um conhecimento que ele jamais poderia encontrar em qualquer outro lugar do mundo.

Pois quem despreza o dia dos humildes começos, esse se alegrará vendo o prumo na mão de Zorobabel. Zc 4.10

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